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Annis Bassith, pioneiro da Administração de Embu

Folha de Embu | Atualizado em: 18/02/2019 00:00:00

Márcio AmêndolaAnnis Neme Bassith foi o 1º prefeito de Embu

Reportagem: Márcio Amêndola, com a colaboração de Olmaro Bebiano e Alexandre Oliveira

Aos 91 anos - ele nasceu em 1927 - Annis Neme Bassith ainda se mantém lúcido e fiel às suas origens, lembrando com saudades, alguns orgulhos e arrependimentos, como contou em entrevista exclusiva aos repórteres Márcio Amêndola, Olmaro Bebiano e Alexandre Oliveira, realizada no dia 9 de fevereiro, pouco mais de uma semana antes do aniversário de 60 anos da Emancipação de Embu das Artes, cujo principal artífice foi ele, Annis, entre 1958 e 1959.

Annis conta que “foi fundada a Associação Cívica de Embu pela união de interesses de vários setores embuenses da época (1958), então formou-se um grupo de trabalho, e as reuniões eram feitas na casa do Carlos Koch, e devagarinho nós vimos o movimento crescer até chegarmos na mão do deputado Scalamandré, e ele levou à Assembleia o pedido de emancipação. Duas pessoas (no Embu) eram contra a emancipação: Domingos Paschoal e Waldemar Ribeiro; eles eram muito aliados de Itapecerica, que não queria”. Mas a emancipação foi aprovada no plebiscito e Embu tornou-se um novo Município paulista, em 18 de fevereiro de 1959, há exatos 60 anos.

Após a conquista da Emancipação por um plebiscito eleitoral, Annis candidatou-se a prefeito pelo PTN (Partido Trabalhista Nacional) e venceu a primeira eleição da história da cidade, em 4 de outubro de 1959, tomando posse, juntamente com seu vice, Dr. Carlos Koch, também emancipador, no dia 1º de janeiro de 1960.

Primeira sede da Prefeitura

Da casa onde nasceu, no Largo 21 de Abril, hoje agência do Banco do Brasil, Annis tem belas e más lembranças. Lembra que em frente à praça havia algumas vacas, pertencentes a Indalécio do Espírito Santo Gonçalves, e que quando alguém queria leite, bastava pedir ao Sr. Indalécio, que ele conduzia o animal ali mesmo ao lado da praça, e da ordenha saía um balde de leite fresco e quente, que logo era bebido pela molecada.

Foi também na mesma casa, no Largo 21 de Abril que funcionou a primeira sede da Prefeitura, em sala cedida pela família Bassith, porque a cidade recém-emancipada não tinha dinheiro para nada. Quando Annis assumiu a prefeitura, ele diz que “não tinha um lápis, uma caneta”.

Annis confirma uma história engraçada, de uma das primeiras leis de Embu, autorizando a compra de um arreio novo para o burro da carroça que recolhia o lixo das casas do Centro. Até para isso era necessária autorização legislativa, e Annis não titubeou: mandou o projeto, aprovou a lei e comprou o arreio novo para o burro.

Maior arrependimento

Uma história triste que Annis conta em relação à sua vida como administrador de Embu foi o que ele chama seu maior arrependimento como prefeito: mandou cortar várias árvores centenárias que se enfileiravam ao lado do campinho de terra no mesmo Largo, porque as árvores eram muito grandes e estavam desalinhadas em relação à rua. “Eu cometi um crime”, lamenta.

“Eu sou culpado de uma coisa importante, de cortar aquelas árvores, tinha umas árvores de cem anos. Burrice, burrice... falta de experiência, eu queria alinhar o jardim, é um pecado, um crime que foi cometido por mim, pegar uma árvore centenária e cortar, sem razão. Foi o maior erro da minha administração, um crime que não me conformo de ter cometido. Hoje eu não teria feito de jeito nenhum, a consciência é outra”, afirma Annis.

Annis também diz que “o que eu gostaria de ter feito e não consegui (como prefeito), gostaria de ter dado mais escola para a mocidade nossa. O ‘Maria Auxiliadora’ é da minha época, e o prédio do MOSC (Escola Madre Odete de Souza Carvalho) foi eu que inaugurei”. Mas diz que gostaria de ter feito mais que isso na Educação do município, com modéstia.

Criação da Feira de Artes

Sobre o que lhe deu mais prazer ao administrar a cidade, o maior orgulho de Annis Bassith foi a criação por ato administrativo, da Feira de Artes de Embu, em 1969, oficializando o que já vinha de forma fragmentada sendo organizado por alguns artistas locais, entre os quais Mestre Gama, Josefina Azteca, Cirso Teixeira, Agenor, Claudionor Assis, entre outros. “A criação da feira de artes de Embu, foi importante, deu projeção para Embu”, afirma Annis. A oficialização da feira de artes e artesanato, por Annis, completa também 50 anos agora, tornando Embu num dos núcleos mais famosos de arte popular do país.

Annis lembra também do incentivo à indústria. Nos anos 1960 Embu tinha três ou quatro fábricas, quase todas ligadas à produção de papel e papelão: Fibracaixa, Cia de Papéis e Papelão Yazbek, Solipel, todas instaladas na atual Avenida Elias Yazbek (antiga Estrada de Itapecerica da Serra, no Centro) e a de componentes elétricos Mallory (Jd. Sadie). Depois veio o Parque Industrial Ramos de Freitas, nome de um antigo proprietário de terras às margens da BR-116, onde hoje também está instalada a Câmara Municipal.

Antes de atuar no Embu em seu próprio negócio, onde fundou as Organizações Contábeis Bassith (Contabilidade e Imobiliária), Annis lembra que trabalhou em São Paulo por 14 anos, como vendedor numa empresa de peças para automóveis, a Companhia Importadora de Produtos Americanos - CIPRA. A partir do início dos anos 1950, quando foi eleito vereador pelo Município de Itapecerica da Serra por dois mandatos, para defender os interesses do distrito de M’Boy (Embu), ele passou a dedicar seu tempo cada vez mais a Embu das Artes, onde vive até hoje, mas já afastado dos negócios. Porém, seu escritório comercial ainda funciona na Rua Solano Trindade.

Inauguração da BR-116 em 1961

Annis lembra que a via mais usada para acesso a Embu entre os anos 1930 e 1950 era a antiga Estrada do DAE (Departamento de Águas e Energia), que passava pelo Jd. João XXIII (às margens da Rodovia Raposo Tavares) até o bairro de Itatuba, passando pelos atuais Santa Luzia e Jd. Silvia, com acesso ao Centro pela atual Estrada Cândido Mota Filho. Foi somente em janeiro de 1961 que a BR-2 foi inaugurada – atual BR-116 – pelo próprio presidente Juscelino Kubitscheck de Oliveira, que veio à divisa de Embu com Itapecerica da Serra, ao lado do atual posto da Polícia Rodoviária Federal, para a inauguração. “Com meu carrinho fui até São Paulo acompanhar o presidente na caravana (até Embu). Ele veio de avião (de Brasília) até (o aeroporto de) Congonhas, e até aqui, de comitiva, de carro”... “Naquele tempo o Embu era uma gostosura, não tinha ninguém”.

Brigas ‘situação’ x ‘oposição’

No que se refere aos embates políticos de Embu nos primeiros anos de governo, Annis lembra da dicotomia entre Arena (situação) e MDB (oposição), com o bipartidarismo imposto pelo regime militar. “O MDB surgiu (no Embu) com a oposição do Oscar Yazbek, que fundou o partido. Era ele, o Benedito (Lourenço de Moraes), e outros. Em 1972 Oscar ganhou a eleição”. Perguntado sobre a que ele atribui a derrota, Annis diz que “é a evolução; a política é uma dinâmica; eu derrotei o Oscar na primeira (1968), ele veio com tudo na segunda (1972), tinha recursos, veio pra cima”.

Perguntado sobre o fato de ter sido de um grupo e um partido conservador (Arena/PDS/hoje PP) que apoiou a ditadura, e depois de ter apoiado em 2000 a candidatura de Geraldo Cruz (PT) e Roberto Terassi (PL), Annis sorri e diz que “eu não apoiei abertamente, mas porque eles eram os melhores, então eu só tinha que escolher, eu não tinha mais vínculo nenhum com partido, nem a política me interessava mais, então eu optei pelos melhores, e os melhores eram o Terassi e o Geraldo, apesar de eu ser um adversário ferrenho do Geraldo. Eu analisava: você não pode ser inimigo (só) porque a política é contrária; não tem essa história. Se a política é contrária, você tem que respeitar, a minha posição é diferente da sua”. Ele conta que durante o último mandato de vereador (1989-1992) “tive que administrar a minha desavença com a (vereadora) Maria das Graças (PT), ela era... petista, mas foi indo, indo e deu certo. O importante é que, com todas as desavenças, eu saí com uma boa amizade com eles”.

Bassith atribui esse respeito que recebe de todas as correntes políticas, inclusive às de esquerda, “porque eu conduzia a minha vida política pautada em coisas sérias, por Embu”.

Caminhão novo e um “gigante”

Continuando, Annis diz que “Embu era uma criança e cresceu, hoje é um gigante. Embu era um distrito, e por ser um distrito, tinha um freio forte; veio a emancipação, se soltou. Quando você é um distrito, fica preso à sede, e não sendo mais distrito, sendo um município, você começa a ser dono da (sua) vida. Mas o início da administração foi difícil pra burro; o caminhão Ford comprei no meu nome, porque o gerente da Ford morava aqui no Embu, e o primeiro caminhão foi engraçado, eu comprei com o meu aval, mas como eu tinha certeza da minha força administrativa, eu acabei avalizando e trazendo o caminhão novo; foi uma festa trazer o caminhão novo!”.

Sobre a industrialização de Embu e a criação do Parque Industrial Ramos de Freitas, Annis diz que “se eu não fizesse isso (Embu) ficava estagnado, o IPTU era fraquinho”. Uma polêmica envolveu a tentativa de Annis de criar o Distrito do Pirajuçara, que seria o primeiro passo para a eventual futura emancipação da periferia de Embu. Muito criticado pelo projeto, apresentado por volta de 1990, quando era vereador na época da gestão do prefeito Joaquim Mathias de Moraes (1989-1992), Annis Bassith se defende das críticas da imprensa na época (inclusive do Jornal Fato Expresso), que dizia que o mapa do novo distrito deixaria os bairros mais pobres sem o Parque Industrial, mas Annis afirma que seu projeto deixava as indústrias no lado do distrito do Pirajuçara, usando a BR-116 como ‘linha de corte’ da nova área administrativa. “Essa divisão, eu não queria trazer tudo pra cá (Centro Histórico), mas deixar (o Parque Industrial) lá (no Distrito do Pirajuçara), que seria o início que dava sustentação financeira”. O proje
to do novo Distrito acabou sendo arquivado, por falta de apoio.

Sobre seu segundo governo à frente da Prefeitura (1968-1972), Annis diz que “no segundo eu peguei melhor, os recursos eram melhores, o imposto já era maior, mas mesmo assim foi difícil”. Sobre as brigas situação x oposição no Embu, e o conturbado período mais duro da ditadura, Annis é reticente ao falar sobre este assunto, mas admitiu que houve muita discussão se deveriam ou não ser cassados ou perseguidos vereadores opositores, por exemplo, mas que segundo ele, ninguém foi perseguido. “Aqui não se pensava em fazer política contra a ditadura, se resguardavam (a oposição), porque eles eram vingativos, o pessoal do exército era vingativo, e você ficava resguardado”.

Para ele, “o passo que Embu deu entre a emancipação (1959) e hoje é enorme. (Embu) tem vida própria, e isso representa muito, a administração. Voltando à emancipação, os benefícios que vieram com ela são enormes; só o fato de você ser dono do seu nariz, não depender de Itapecerica... porque havia uma rivalidade grande entre Embu e Itapecerica... sair da teta da vaca e tomar leite sozinho” (risos).

Longevidade e família

Com relação à longevidade, tendo vivido quase um século, Annis diz que encara isso com otimismo: “Eu administro isso muito bem; você tem saudades de algumas fases, mas você tem que encarar o futuro, não o passado, o passado não adianta nada. Estou com 91 anos, e graças a Deus a cabeça funciona bem”.

Annis lembra do passado e da família, seu pai, mãe e três filhos. “Perdi meu irmão jovem, Neme Bassith, de câncer, sofreu pra burro. Perdi um irmãozinho de cinco anos, Feres, que ficou internado no Hospital Emílio Ribas e morreu de uma doença de ocasião, perdi o Neme com trinta e poucos, foi muito triste, mas a vida é assim mesmo. Meu pai, Salim Neme Bassith veio de Beirute (Líbano), com 12 anos, e quando veio a Embu se instalou naquele prédio que tem o Berimbau (em frente ao Convento, no Largo dos Jesuítas), dos tios dele, ele veio morar ali, com 12 anos, ele veio garotão de tudo. Mamãe, Excândara Bechara Bassith (dona Alexandrina) casou-se com meu pai em Ribeirão Pires moça, adulta, o conheceu aqui. Ela também era de Beirute. A história de mamãe é muito interessante, ela veio pro Embu, não tinha água, não tinha luz, era vila, o Embu era uma vila, não tinha nada, nada, nada. E ela veio para Embu, ficava no armazém, e não podia falar a língua (árabe) com o papai, porque o pessoal dos sítios achavam que estava
m falando mal deles. E eu fiquei sem apreender o árabe por estupidez minha”.

Mensagem aos que aqui estão

Como mensagem para quem vive hoje na cidade, após esses 60 anos de administração, Annis Bassith diz que “eu deixaria de mensagem é que não houvesse tanta política, houvesse mais trabalho, menos politicagem e mais trabalho; é o que precisa, sem trabalho você não avança, não é?”. Sobre a qualidade da política de Embu hoje, ele disse: “Vou falar do pouco que eu conheço um pouco de Embu: muito ruim. Porque eles não fazem administração para o bem da cidade, eles pensam muito no bem deles; essa é a realidade”.

Sobre ter recebido o título de “Cidadão Embuense” mesmo tendo nascido no Embu (destinado a pessoas de fora que vieram para a cidade e se destacaram), Annis se diverte: “Eles não imaginam o que é ser cidadão embuense, eles dão título a torto e a direito”, criticando o grande número de homenagens entregues pela Câmara. Quanto à vida pública, Annis acha que “valeu a pena, porque eu consegui alguns objetivos; o duro é quando você fica numa luta e não consegue nada, é ruim, mas eu consegui. Eu só tenho a agradecer e fazer votos que o Embu continue na caminhada do progresso”, concluiu o homem que é a história viva de Embu das Artes.

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